12 ene. 2008

Porque se tu me quisesses

Porque se tu me quisesses

eu saberia que a vida me oferecia um presente.


Cada vez que passo pela tua loja e paro

colo o nariz à montra e observo-te maravilhada.

Sim, é este, é este que quero!

Um escaparate amolgado pelos desusos e maus usos

das pobres cegas que te confundiram

com um guichet de reclamações.


E fecho os olhos

e beijo o frio vidro que se aquece num instante

deixo marcados os meus lábios

na esperança de que os vejas

quando, distraído ou aborrecido

te decidas a reparar o vandalismo das cegas.


Porque se tu me quisesses

eu seria o carvalho frondoso que te cobiçara.

E acontece que ao passares

a natureza, que sente o odor da tua pureza

quer aos gritos instalar-se no teu caminho

como se fosse uma alameda

que embeleza, delimita e protege os trilhos.

A tua vereda.


Porque se tu me quisesses

eu saberia que a vida me premiava,

Não pelos meus sofrimentos

nem pela dureza dos meus tempos

nem pela minha infância imperfeita

que isso qualquer um viveu.


Recompensar-me-ia por ter a visão certa

por saber ver que tu não és

mais um que deambula pela vida,

por ver que o teu passo deixa marcas,

que por onde pisas a erva cresce fresca e forte,

que as árvores não têm preguiça

de forçar a seiva a alimentar a sua beleza

para conseguir que o teu olhar pose em sua casca.


Pois tu clamas à vida e a vida a ti se une e não te larga,

porque a essência humana se reflecte

no teu olhar de homem bom, na tua doçura

no teu saber estar

na tua presença natural

no teu amor flexível pelos outros

e nessa nuvem que te rodeia

e que me deixa extasiada

e com expressão de pimpinela.


Porque a minha alma se distende

e os meus músculos se relaxam,

e todo o meu ser se reconforta

na tua presença

real ou inventada.


Porque sei que o meu coração tem um vazio

e que,

esse oco que em mim vai doendo

na solidão da noite

encontra o seu molde no oco do teu peito

como duas peças do mesmo puzzle

que há séculos de um lado para o outro dissimulam a sua tristeza

olhando o mundo e crescendo

aprendendo e dizendo

“a solidão não me pesa”

mas que ao se encontrarem e ao olharem

cara a cara

oco a oco

se reconhecem como complementares

e então

nenhuma viagem é a mesma,

nenhuma lição sabe ao mesmo

nenhuma frase tem o mesmo sentido.


Porque se tu me quisesses

fecharia os olhos à razão

junto aos teus

e não mais quereria erguer a cabeça.


Se tu quisesses sacudir o teu caminho

como se de um tapete verde se tratasse

e o plantasses junto ao meu em paralelo…


Porque sem ver-te vejo terra, cheiro o ar

oiço a porta do forno da avó.

És centro e vértice primordial.


És o sempre, a resposta

a verdade sem razão, a inconsciência,

o livro da minha vida escrito em tinta antiga

mas que cheira a nova.


E tu vês biscoitos nas minhas letras

E eu, quando te penso

vejo empadas recheadas

no calor da chaminé;

um pau de brincar com as brasas

a leitura de um poema

a música como manta

na mão um copo de licor

e um respirar fundo, como daquele que chega à sua meta.


Sinto o barro cozido nos meus pés

Sinto a madeira nas minhas paredes

Sinto o xisto no meu tecto

Sinto que tudo está como dantes.


Porque tu não és um príncipe

Não és um mago

Não és um deus

Não és perfeito

Não és um santo

Apenas és tu.


Se tu quisesses sacudir o teu caminho

como se de um tapete verde se tratasse

e o plantasses junto ao meu em paralelo…



Traducción de Pedro Boléo-Tomé

5 comentarios:

La pecera muy feliz dijo...

Que divertido, esse mundo inet..Eu nao sabia que esse poema era teu.
Glup
Elphy440

cricricri dijo...

.....jo!, en lengua lusa es aún mas bonito, enhorabuena!!

Ciro dijo...

la musicalidad del idioma es indudable .
Al leerlo en mi cerebro suena una canción.

besos...en el aire

Diáfana dijo...

Tudo o que publico é meu.
A no ser que indique lo contrario.
El que dudaras de mi autoría, Elphy440, es un buen piropo para mi.
Besitos y Glups, Glups (1 en español y otro en portugués jijiji)



Cricricri,gracias. Me entran aún mas ganas de aprender portugués. A ver este verano si puede ser...



A mi también me pasa, Ciro, el portugués es así, siempre viene una canción a la cabeza.
Recojo tu beso, me lo pego a la cara, lo pongo en mi mano y con un dulce soplido te lo devuelvo :)

La pecera muy feliz dijo...

No dude, pero al verlo en portugues..busque por la red la version castellana.. y wow me encuentro a Diafana, pero solo a ratos como autora. Mañana lo busco en Francés por si tienes alguna otra traduccion colgada por ahí.
Un beijinho de peixe.
Glup
Elfy440.